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Dermatite atópica no SUS: Psoríase Brasil cobra acesso a tratamentos já incorporados em PCDT

Médicos e pacientes relatam demora, burocracia e judicialização para obter medicamentos, e entidade pede nova atuação da Frente Parlamentar pelas Doenças Crônicas de Pele da Câmara Federal. O tratamento existe e os medicamentos foram incorporados ao SUS. Mesmo assim, pacientes com dermatite atópica (DA) moderada a grave e médicos que os acompanham continuam relatando dificuldades para conseguir acesso, na prática, às terapias previstas.

Diante da falta de medicamentos, a Psoríase Brasil encaminhou novo ofício ao deputado federal Zé Haroldo Cathedral, presidente da Frente Parlamentar pelas Doenças Crônicas de Pele, reunindo o histórico das cobranças realizadas em 2026 e manifestações de especialistas que atendem pacientes com DA moderada a grave.

A entidade pede nova atuação junto ao Ministério da Saúde para esclarecer quando o fornecimento estará efetivamente regularizado e quais providências serão adotadas para superar os entraves nos estados.

“Para quem convive com uma doença que compromete o sono e afeta toda a rotina, a demora tem consequências imediatas. A política pública precisa sair do papel e chegar a quem precisa. Cada dia é mais um dia de sofrimento que poderia ser controlado”, afirma Gladis Lima, presidente da Psoríase Brasil.

O que está previsto para o tratamento da dermatite atópica no SUS?

Em outubro de 2024, o Ministério da Saúde publicou as decisões de incorporação do dupilumabe para crianças e do upadacitinibe para adolescentes com dermatite atópica grave, enquanto as terapias-alvo avaliadas para adultos não foram incorporadas ao SUS. Essas decisões foram posteriormente incorporadas às diretrizes do novo PCDT da Dermatite Atópica, publicado em novembro de 2025, que passou a orientar nacionalmente o diagnóstico, o acompanhamento e o tratamento da doença na rede pública.

O dupilumabe para crianças com dermatite atópica grave e o upadacitinibe para adolescentes com a forma grave da doença foram incorporados ao SUS em outubro de 2024. Em novembro de 2025, o Ministério da Saúde publicou o PCDT atualizado da Dermatite Atópica, com critérios para diagnóstico, acompanhamento e tratamento na rede pública.

Em resposta a uma manifestação da Psoríase Brasil à Ouvidoria-Geral do SUS, o Ministério informou que dupilumabe, upadacitinibe e metotrexato estão incluídos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) para dermatite atópica grave. Dupilumabe e upadacitinibe integram o Grupo 1A do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, com aquisição centralizada pelo Ministério da Saúde e posterior envio aos estados e ao Distrito Federal.

A resposta, porém, informou que não existe um cronograma nacional único para a oferta regular, pois a disponibilização também depende da organização de cada estado.

Para pacientes, médicos e Psoríase Brasil permanece a questão central, quando o tratamento prescrito chegará efetivamente a quem precisa?

Cinco especialistas relatam as consequências da falta de acesso

As manifestações encaminhadas à Psoríase Brasil mostram que a dificuldade não é apenas burocrática. Na avaliação dos médicos, a demora prolonga sintomas, compromete a qualidade de vida e deixa profissionais diante da frustração de conhecerem terapias capazes de controlar a doença sem conseguirem fazê-las chegar aos pacientes.

A alergista e imunologista Dra. Ana Paula Beltran Moschione Castro, que atua há quase 30 anos no cuidado de dermatite atópica, destaca que a ciência avançou e hoje existem tratamentos capazes de reduzir complicações. “Temos à disposição tratamentos que podem minimizar complicações e diminuir o risco de doenças associadas [...] mas não temos a parte mais importante: a viabilização da medicação na casa do paciente”, afirma.

O dermatologista Dr. Raul Cartagena Rossi relata exigências documentais sucessivas, procedimentos pouco claros e longos períodos de espera. Para ele, a demora tem consequência direta: “Cada atraso prolonga o sofrimento e mantém pessoas com uma doença grave sem o tratamento de que necessitam.”

Os relatos das dermatologistas Dra. Jaquellini Barboza da Silva e Dra. Karina Agostini Fraga mostram como esse sofrimento ultrapassa a pele. Coceira intensa, perda de sono, infecções, impacto no aprendizado e na socialização, afastamento escolar, comprometimento da vida profissional dos familiares e endividamento para custear tratamentos aparecem na experiência dos pacientes atendidos pelas especialistas.

Jaquellini relata casos extremos, incluindo crianças que perderam o ano escolar, internações decorrentes de infecções graves e um adolescente que tentou suicídio após sofrer bullying relacionado à aparência da pele. Para ela, a aprovação do protocolo representou um avanço que ainda precisa chegar à vida real: “Por ora, o PCDT de dermatite atópica foi uma vitória. Vitória vazia.”

Responsável pelo Ambulatório de Doenças Crônicas de Pele em Muriaé (MG), Karina acompanha diariamente pacientes que aguardam acesso às terapias e resume: “Quem enfrenta uma doença grave precisa de assistência, não de obstáculos que tornem o tratamento inacessível.”

Com mais de 20 anos de atendimento a pacientes com dermatite atópica pelo SUS na Santa Casa de Porto Alegre, o dermatologista Dr. Daniel Lorenzini lembra que, durante muitos anos, praticamente não havia terapias específicas disponíveis. Agora, com medicamentos capazes de melhorar a doença e a qualidade de vida, surgiu um novo problema, ter acesso.

O especialista relata casos de pacientes que obtiveram medicamentos por judicialização, apresentaram melhora importante e depois passaram a enfrentar interrupções no fornecimento. 

Também chama atenção para a transição de idade prevista no protocolo. Pacientes controlados durante a adolescência podem precisar mudar de terapia ao completar 18 anos, mesmo depois de responderem ao tratamento. Ponto que a Psoríase Brasil também tem destacado sobre o PCDT aprovado. 

Cobrança começou no início de 2026

A mobilização da Psoríase Brasil não começou agora. Em fevereiro de 2026, a entidade já havia levado ao deputado Zé Haroldo Cathedral a necessidade de garantir a implementação do tratamento da dermatite atópica no SUS.

Em julho, diante da persistência das dificuldades, procurou a Ouvidoria-Geral do SUS para questionar a disponibilização dos medicamentos e a existência de um cronograma nacional.

Agora, com novos relatos de pacientes e especialistas, a Associação solicita que o tema volte ao Ministério da Saúde e ao debate parlamentar. 

Entre os esclarecimentos pedidos estão:

  • A situação da aquisição e distribuição dos medicamentos de responsabilidade federal

  • As medidas para apoiar os estados 

  • Os obstáculos à dispensação e a definição de etapas e prazos para que o tratamento chegue aos pacientes.

Tratamento precisa chegar ao paciente

A dermatite atópica grave é uma doença inflamatória crônica que pode provocar coceira intensa, lesões persistentes, alterações do sono, dor, infecções e sofrimento emocional. Quando não controlada, pode interferir na escola, no trabalho, nas relações sociais, na autoestima e na saúde mental, atingindo também toda a família.

A existência de medicamentos incorporados e de um PCDT representa um avanço, mas não encerra o problema.

A política pública só se concretiza quando o tratamento chega ao paciente.

A Psoríase Brasil continuará acompanhando o acesso às terapias e cobrando respostas para que os pacientes elegíveis possam receber efetivamente o tratamento previsto.

Você ou alguém da sua família enfrenta dificuldades para acessar o tratamento da DA pelo SUS? Acompanhe a Psoríase Brasil e participe do Observatório Brasileiro de Doenças Crônicas de Pele. 

Os relatos dos pacientes ajudam a mostrar onde ainda estão as barreiras e fortalecem a busca por soluções.